O que a Anthropic fez — e por que não há como desativar
A partir de 2 de agosto de 2026, todos os modelos Claude lançados nessa data ou depois passaram a incorporar uma watermark invisível em todo texto gerado. A técnica usada é uma versão do SynthID-Text, desenvolvido originalmente pelo Google DeepMind e descrito em um paper na revista Nature em 2024. O princípio é simples: quando o modelo precisa escolher entre palavras de valor equivalente — "cinzento" ou "acinzentado", "porém" ou "contudo" — a escolha é guiada por uma chave criptográfica que cria um padrão detectável por quem possui a chave, mas invisível para o leitor humano. A marca viaja quando o texto é copiado e colado. Edições leves provavelmente não a removem. Uma reescrita completa, palavra por palavra, sim.
A Anthropic não oferece opção de desativação. A justificativa é o cumprimento do Artigo 50 do AI Act europeu e do Código de Prática sobre Transparência de Conteúdo Gerado por IA, assinado pela empresa junto a cerca de 190 outras organizações em julho de 2026. A aplicação é global — não apenas para usuários na União Europeia. A empresa prevê lançar uma API de detecção de watermark em breve. Uma marca detectada significa apenas que o Claude pode ter processado aquele conteúdo — não que o escreveu integralmente. Alguém que usa o Claude para revisar ou traduzir seu próprio texto também terá o resultado marcado.
O que o Google fez — e o que permanece invisível
Em 14 de agosto de 2026, Josh Woodward, vice-presidente do Gemini no Google, anunciou que os usuários poderão desativar a marca visível — o ícone de brilho que aparece no canto de imagens, vídeos e músicas geradas pelos modelos Nano Banana, Omni e Lyria. A opção fica em Configurações, dentro de Marca d\'agua de Mídia, e estará disponível no Gemini e no editor de vídeo Flow, com suporte ao Search previsto para breve. Em países onde a lei exige a marca visível — como Índia, Coreia do Sul e Vietnã — ela permanece obrigatória.
O que não muda: a SynthID invisível e os metadados C2PA continuam embutidos em todo conteúdo gerado, independente da configuração do usuário. O Google também abriu o código da biblioteca Credentio, que permite a desenvolvedores integrar verificação local de C2PA em seus próprios aplicativos. A SynthID já marcou mais de 100 bilhões de imagens, vídeos e arquivos de áudio desde seu lançamento em 2023.
O que OpenAI e Meta fazem — e o que o AI Act exige
A OpenAI nunca usou marcas visíveis. Em 19 de maio de 2026, a empresa aderiu ao padrão C2PA como Conforming Generator e integrou a SynthID do Google DeepMind em imagens geradas pelo ChatGPT, Codex e API. O resultado é uma abordagem de dupla camada: metadados C2PA com contexto detalhado e watermark invisível resistente a transformações como screenshots e conversão de formato. A Meta segue caminho similar, usando labels de proveniência sem marca visual explícita. A OpenAI mantém um detector de texto com 99,9% de acurácia desenvolvido há dois anos mas ainda não lançado publicamente — os motivos incluem a facilidade com que pode ser contornado por tradução ou reescrita, e o risco de falsos positivos em contextos de educação.
O AI Act, em seu Artigo 50, obriga provedores de sistemas de IA generativa a marcar conteúdo produzido por modelos lançados a partir de 2 de agosto de 2026. O descumprimento pode gerar multas de até 15 milhões de euros ou 3% do faturamento global anual. O prazo de adaptação para sistemas existentes vai até dezembro de 2026. O padrão C2PA — mantido pela Coalition for Content Provenance and Authenticity, com mais de 6.000 membros incluindo Google, Microsoft, Adobe, Meta, OpenAI, Sony e BBC — é considerado a principal rota de conformidade, mesmo sem ser nomeado diretamente na lei.
Transparência para quem?
As duas decisões desta semana expõem tensões reais. A Anthropic escolheu a obrigação irrevogável: toda saída do Claude carrega uma marca que o usuário não controla, como exigência de conformidade regulatória. O Google escolheu a separação entre camadas: a visível é agora uma escolha criativa; a invisível é inegociável. Nenhuma das abordagens resolve o problema central — as watermarks são evidência de processamento, não prova de autoria. Um jornalista que usa IA para revisar seu texto, um estudante que a usa para traduzir um artigo, um programador que cola código gerado dentro de um projeto maior — todos produzem conteúdo marcado que pode ou não ser "gerado por IA" dependendo de como se define o termo. O debate sobre watermarking não terminou em agosto de 2026. Ele apenas ganhou um par de casos concretos para ancorar os próximos anos.

