O que a investigação revelou
Uma reportagem da 404 Media publicada em 17 de agosto de 2026 escondeu um AirTag numa encomenda de 1.000 livros raros e rastreou o percurso desde a Califórnia até ao armazém LAS8 em Las Vegas, Nevada. O destino específico: a divisão VGT3, cuja entrada exibe o logótipo de um T-Rex a segurar um livro entre os dentes. Funcionários descreveram a rotina como receber remessas a granel, fatiar as lombadas para separar as páginas, passar os volumes por scanners de alta velocidade e descartar os restos. O texto digitalizado alimenta os modelos Nova da Amazon.
Por que livros raros se tornaram ouro para a IA
A web está saturada de conteúdo gerado por modelos de linguagem. Quando os LLMs treinam nesse material produzem um fenómeno chamado model collapse — degradação progressiva da qualidade dos outputs à medida que o sistema ingere as suas próprias imperfeições amplificadas. Livros raros fora de impressão, especialmente os publicados antes de 2022, oferecem texto humano autêntico e irreproduzível. A Amazon confirmou à 404 Media que "compra livros através de canais comerciais para melhorar os produtos e serviços dos clientes" — sem mencionar a destruição dos originais.
Precedente legal e escala global
A prática não é exclusiva da Amazon. Uma investigação anterior envolvendo a Anthropic revelou o "Project Panama" — programa idêntico onde livros comprados em mercados secundários tinham as lombadas cortadas e eram digitalizados. Um tribunal decidiu que destruir o original físico após digitalizar constitui uso "transformativo" e não viola direitos de autor. O settlement do caso Anthropic com autores foi aprovado em julho de 2026: 1,5 mil milhões de dólares cobrindo cerca de 500.000 obras, aproximadamente 3.000 dólares por obra elegível. Livreiros reportam encomendas anómalas — grandes volumes, selecção aleatória de títulos, todos com ISBN — e suspeitam que empresas de IA estão a percorrer sistematicamente o catálogo global de livros impressos.

